segunda-feira, 31 de março de 2014

"Sou homem.


Quando nasci, meu avô parabenizou meu pai por ter tido um filho homem. E agradeceu à minha mãe por ter dado ao meu pai um filho homem. Recebi o nome do meu avô.
Quando eu era criança, eu podia brincar de LEGO, porque "Lego é coisa de menino", e isso fez com que minha criatividade e capacidade de resolver problemas fossem estimuladas.
Ganhei lava-jatos e postos de gasolina montáveis da HotWheels. Também ganhei uma caixa de ferramentas de plástico, para montar e desmontar carrinhos e caminhões. Isso também estimulava minha criatividade e desenvolvia meu raciocínio, o que é bom para toda criança.
Na minha época de escola, as meninas usavam saias e meus amigos levantavam suas saias. Dava uma confusão! E então elas foram proibidas de usar saias. Mas eu nunca vi nenhum menino sendo realmente punido por fazer isso, afinal de contas "Homem é assim mesmo! Puxou o pai esse danadinho" - era o que eu ouvia. Em casa, com meus primos, eu gostava de brincar de casinha com uma priminha. Nós tínhamos por volta de 8 anos. Eu era o papai, ela era a mamãe e as bonecas eram nossas filhinhas. Na brincadeira, quando eu carregava a boneca no colo, minha mãe não deixava: "Larga a boneca, Juninho, é coisa de menina". E o pai da minha priminha, quando via que estávamos brincando juntos, de casinha, não deixava. Dizia que menino tem que brincar com menino e menina com menina, porque "menino é muito estúpido e, principalmente, pra frente". Eu não me achava estúpido e também não entendia o que ele queria dizer com "pra frente", mas obedecia.
No natal, minha irmã ganhou uma Barbie e eu uma beyblade. Ela chorou um pouco porque o meu brinquedo era muito mais legal que o dela, mas mamãe todo ano repetia a gafe e comprava para ela uma boneca, um fogãozinho, uma geladeira cor-de-rosa, uma batedeira, um ferro de passar.
Quando fiz 15 anos e comecei a namorar, meu pai me comprou algumas camisinhas. Na adolescência, ninguém me criticava quando eu ficava com várias meninas. Atualmente continua assim. Meu pai não briga comigo quando passo a noite fora. Não fica dizendo que tenho que ser um "rapaz de família". Ele nunca me deu um tapa na cara desconfiado de que passei a noite em um motel. Ninguém fica me dando sermão dizendo que eu tenho que ser reservado e me fazer de difícil. Ninguém me julga mal quando quero ficar com uma mulher e tomo a iniciativa. Ninguém fica regulando minhas roupas, dizendo que eu tenho que me cuidar.
Ninguém fica repetindo que eu tenho que me cuidar porque "mulher só pensa em sexo". Ninguém acha que minhas namoradas só estavam comigo para conseguir sexo. Ninguém pensa que, ao transar, estou me submetendo à vontade da minha parceira. Ninguém demoniza meus orgasmos. Nunca fui julgado por carregar camisinha na mochila e na carteira. Nunca tive que esconder minhas camisinhas dos meus pais.
Nunca me disseram para me casar virgem por ser homem. Nunca ficaram repetindo para mim que "Homem tem que se valorizar" ou "se dar ao respeito". Aparentemente, meu sexo já faz com que eu tenha respeito.
Quando saio na rua ninguém me chama de "delícia". Nenhuma desconhecida enche a boca e me chama de “gostoso” de forma agressiva. Eu posso andar na rua tomando um sorvete tranquilamente, porque sei que não vou ouvir nada como “Larga esse sorvete e vem me chupar”. Eu posso até andar na rua comendo uma banana. Nunca tive que atravessar a rua, mesmo que lá estivesse batendo um sol infernal, para desviar de um grupo de mulheres num bar, que provavelmente vão me cantar quando eu passar, me deixando envergonhado.
Nunca tive que fazer caminhada de moletom porque meu short deixa minhas pernas de fora e isso pode ser perigoso. Nunca ouvi alguém me chamando de “Desavergonhado” porque saí sem camisa. Ninguém tenta regular minhas roupas de malhar. Ninguém tenta regular minhas roupas. Eu nunca fui seguido por uma mulher em um carro enquanto voltava para casa a pé. Eu posso pegar o metrô lotado todos os dias com a certeza que nenhuma mulher vai ficar se esfregando em mim, para filmar e lançar depois em algum site de putaria. Nunca precisaram criar vagões exclusivamente para homens em nenhuma cidade que conheço.
Nunca ouvi falar que alguém do meu sexo foi estuprado por uma multidão.
Eu posso pegar ônibus sozinho de madrugada. Quando não estou carregando nada de valor, não continuo com medo pelo risco ser estuprado a qualquer momento, em qualquer esquina. Esse risco não existe na cabeça das pessoas do meu sexo. Quando saio à noite, posso usar a roupa que quiser. Se eu sofrer algum tipo de violência, ninguém me culpa porque eu estava bêbado ou por causa das minhas roupas.
Se, algum dia, eu fosse estuprado, ninguém iria dizer que a culpa era minha, que eu estava em um lugar inadequado, que eu estava com a roupa indecente. Ninguém tentaria justificar o ato do estuprador com base no meu comportamento. Eu serei tratado como VÍTIMA e só. Ninguém me acha vulgar quando faz frio e meu “farol” fica “aceso”. Quando transo com uma mulher logo no primeiro encontro sou praticamente aplaudido de pé. Ninguém me chama de “vagabundo”, “fácil”, “puto” ou “vadio” por fazer sexo casual às vezes. 99% dos sites de pornografia são feitos para agradar a mim e aos homens em geral.
Ninguém fica chocado quando eu digo que assisto pornôs. Ninguém nunca vai me julgar se eu disser que adoro sexo. Ninguém nunca vai me julgar se me ver lendo literatura erótica. Ninguém fica chocado se eu disser que me masturbo. Nenhuma sogra vai dizer para a filha não se casar comigo porque não sou virgem.
Ninguém me critica por investir na minha vida profissional. Quando ocupo o mesmo cargo que uma mulher em uma empresa, meu salário nunca é menor que o dela. Se sou promovido, ninguém faz fofoca dizendo que dormi com minha chefe. As pessoas acreditam no meu mérito. Se tenho que viajar a trabalho e deixar meus filhos apenas com a mãe por alguns dias, ninguém me chama de irresponsável. Ninguém acha anormal se, aos 30 anos, eu ainda não tiver filhos. Ninguém palpita sobre minha orientação sexual por causa do tamanho do meu cabelo.
Quando meus cabelos começarem a ficar grisalhos, vão achar sexy e ninguém vai me chamar de desleixado.
A sociedade não encara minha virgindade como um troféu.
90% das vagas do serviço militar são destinadas às pessoas do meu sexo. Mesmo quando se trata de cargos de alto escalão, em que o oficial só mexe com papelada e gerência.
Se eu sair com uma determinada roupa ninguém vai dizer “Esse aí tá pedindo”.
Se eu estiver em um baile funk e uma mulher fizer sexo oral em mim, não sou eu quem sou ofendido. Ninguém me chama de "vagabundo" e nem diz "depois fica postando frases de amor no Facebook".
Se vazar um vídeo em que eu esteja transando com uma mulher em público, ninguém vai me xingar, criticar, apedrejar. Não serei o piranha, o vadio, o sem valor, o vagabundo, o cachorro. Estarei apenas sendo homem. Cumprindo meu papel de macho alpha perante a sociedade.
Se eu levar uma vida putona, mas depois me apaixonar por uma mulher só, as pessoas acham lindo. Ninguém me julga pelo meu passado. Ninguém diz que é falta de higiene se eu não me depilar. Ninguém me julgaria por ser pai solteiro. Pelo contrário, eu seria visto como um herói. Nunca serei proibido de ocupar um cargo alto na Igreja Católica por ser homem. Nunca apanhei por ser homem. Nunca fui obrigado a cuidar das tarefas da casa por ser homem. Nunca me obrigaram a aprender a cozinhar por ser homem. Ninguém diz que meu lugar é na cozinha por ser homem. Ninguém diz que não posso falar palavrão por ser homem. Ninguém diz que não posso beber por ser homem. Ninguém olha feio para o meu prato se eu colocar muita comida. Ninguém justifica meu mau humor falando dos meus hormônios. Nunca fizeram piadas que subjugam minha inteligência por ser homem.
Quando cometo alguma gafe no trânsito ninguém diz “Tinha que ser homem mesmo!”; Quando sou simpático com uma mulher, ela não deduz que “estou dando mole”. Se eu fizer uma tatuagem, ninguém vai dizer que sou um “puto”. Ninguém acha que meu corpo serve exclusivamente para dar prazer ao sexo oposto. Ninguém acha que terei de ser submisso a uma futura esposa. Nunca fui julgado por beber cerveja em uma roda onde eu era o único homem. Nunca me encaixo como público-alvo nas propagandas de produtos de limpeza. Sempre me encaixo como público-alvo nas propagandas de cerveja. Nunca me perguntaram se minha namorada me deixa cortar o cabelo. Eu corto quando quero e as pessoas entendem isso. Não há um trote na USP que promove minha humilhação e objetificação.
A sociedade não separa as pessoas do meu sexo em “para casar” e “para putaria”.
Quando eu digo “Não” ninguém acha que estou fazendo charme. Não é não.
Não preciso regrar minhas roupas para evitar que uma mulher peque ou caia em tentação.
As pessoas do meu sexo não foram estupradas a cada 40 minutos em SP no ano passado.
As pessoas do meu sexo não são estupradas a cada 12 segundos no Brasil.
As pessoas do meu sexo não são estupradas por uma multidão nas manifestações do Egito.
Não sou homem. Mas, se você é, é fundamental admitir que a sociedade INTEIRA precisa do Feminismo.
Não minimize uma dor que você não conhece."
(Camila Oliveira Dias )

18 comentários:

  1. Uou! O melhor texto sobre estupro e sobre as diferenças entre homem e mulher que já vi...
    Compartilhando!
    Beijão, Lala.

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  2. Eu vi esse texto no seu facebook e já tinha lido ele antes. Fantástico. Triste!
    É por isso que eu estou nessa luta, me considero feminista e levanto a bandeira. Porque eu acho que é importante.

    Parabéns, Mona!
    Vamos juntas <3

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  3. Forte, não?? Não para mim, que sou mulher e sei disso tudo... mas para um homem que não consegue enxergar um palmo a frente...

    Bjinhos
    Juju
    asbesteirasquemecontam.blogspot.com.br

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  4. Bom texto, todo mundo não vê esse lado do homem neah?!
    Que nós mulheres passamos por muitas coisas e ainda temos que ouvir essas besteiras..

    http://www.pamlepletier.com/

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  5. Já li esse texto uma vez e achei simplesmente fantástico! Concordo com a Juju, mas infelizmente também existem mulheres que concordam com esse absurdo!

    beeeijos,
    Miss Sainha

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  6. Acho esse texto ótimo!
    Penso que é um momento em que todas nós temos de nos unir e reivindicar nossos direitos e posições!

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  7. Eu já havia lido esse texto, é incrível.

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  8. Eu já te falei que esse texto é incrível né?E totalmente incontestável,essa é a verdade nua e crua de um mundo totalmente machista, desde a sua criação.

    http://vanessaquirino.blogspot.com.br/

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  9. Sem palavras... Simplesmente perfeito!

    http://www.ohcabelo.com.br/
    (retribuo tudo)
    Beijo

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  10. Sinceramente não consigo entender como, tanto um homem quanto uma mulher, pode ser contra o feminismo... Enfim, temos um longo caminho ainda a percorrer. Bem interessante o texto!

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  11. Texto incrível! Infelizmente vivemos em uma cultura machista que considero muito difícil de mudar, pois ela esta ai há um bom tempo.

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  12. Que texto, forte, cheio de sentimentos e cheio de pontos que precisam ser destrinchados e discutidos. Muito bom que as pessoas estejam, finalmente, se expondo a isso e se propondo a pensar e a falar sobre isso de maneira crítica, clara e com vontade de MUDAR.


    Beijos
    Brilho de Aluguel

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  13. Eu já tinha lido esse texto, uma pura verdade!

    bydeborafernandes.blogspot.com

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  14. Ótimo texto. Infelizmente, mesmo com tantos textos excelentes, com tantos argumentos indiscutíveis, ainda vejo muuuito homem cego para o problema da opressão das mulheres. Acho que precisaremos de anos para desconstruir o patriacardo que foi construído tambem em anos. e a religião ajudou a chegar a isto e ainda ajuda.

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  15. Quem "miniminiza" o feminismo, nem sabe o que o feminismo significa. Na verdade, existe muitos discursos equivocados ou radicais sobre o tema, que faz as pessoas, que nunca pesquisaram sobre isso a fundo, peguem antipatia sobre isso. Há pouco tempo mesmo, um menino veio me dizer que odeia o feminismo, mas o "feminismo" que ele odeia, não tem nada a ver com o real feminismo. Complicado isso.
    Uma Questão de Estilo

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  16. muito legal seu blog gostei muito flor estou seguindo se vc poder seguir o meu agradeço http://dinhamodas10.blogspot.com.br/ bjs

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  17. E eu estava passando na rua com meu batom vermelho esses dias. Um van/carro com a janela aberta passa do meu lado, e o motorista grita "que vontade de arrancar esse batom da sua boca". Até quando isso vai continuar, até quando por usar uma roupa, pelo tamanho da minha saia, pelo meu decote, pela hora que eu ando na rua, e até pela minha maquiagem, eu vou ter que ouvir comentários humilhantes. Até quando eu vou ter que passar por certas coisas só por pura, e simplesmente, ser mulher? (Texto incrível, parabéns pela autora, e pela sua iniciativa de postá-lo)

    Beijos =*

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  18. Vi esse texto passeando pelo Facebook e achei ele tão incrível que não hesitei em compartilhar (e olha que eu seleciono minuciosamente o que compartilho lá). Sensacional.
    Beijão.

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Não gaste teclado: SE NÃO LEU, NÃO COMENTE. Também não tente me enganar: Eu percebo quando a pessoa não leu nada. (Aliás, tem gente que não lê nem isso aqui).