Nesses constantes momentos acredito que sei como é estar morta. Vazia de sentimentos, nada me passa pela cabeça ou me faz crer que vivo. O quarto está escuro e o único som audível é da respiração de Marco. Como num impulso, eu fecho os olhos e tento sentir algo. Também como num impulso, eu quase ouço o som de um grande instrumento, mas precisamente, sinto meus dedos nas teclas de um piano, a qual eu conheço bem. Mas a sensação é momentânea, é imaginária. Preciso sentir que vivo, preciso escrever.
Me sento na cama e tateio o aparelho celular. O relógio me mostra 00:03hs, e o que eu penso em fazer parece errado. Ignoro o pensamento e ligo a lanterna do meu celular. Na gaveta do criado mudo eu encontro o caderno, e me dirijo ao armário em busca de uma caneta. Mas não qualquer caneta, a caneta preta de tinteiro, presente do meu pai.
As palavras pulam, da minha cabeça para a caneta, da caneta para o caderno. São as ultimas páginas de um romance, que nunca publicarei. Escrevi até as 2 da manhã, e por fim, terminei. Está feito.
A cama não me parecia atraente. Mas o cansaço me dominou e eu finalmente adormeci. E me encontrei com ele, mas uma vez.
Esse sonho eu conhecia quase que de cor. Era meu pai no salão do orfanato Xavier, em Alphaville, São Paulo. O piano estava atrás dele. Ele estava de camisa branca, tecido fino, uma calça jeans. Enquanto eu estava com um blusão de lã, uma calça confortável e uma botinha. Sempre que ele vinha a mim, estávamos da forma mais confortável possível; isso pra mim era bastante simbólico, já que eu sempre via meu pai de terno e gravata. Então eu o via e sem euforia, como se ele sempre estivesse lá, me esperando, ia até ele. Sentava ao seu lado no piano, e tocava pra ele. E quando eu terminava ele dizia: "Está na hora, Lili". E sorria. "Você sabe, você precisa estudar. Precisa andar com as suas pernas".
Ele me tirava o cabelo do rosto e então finalmente me abraçava. "Não se arrependa das suas escolhas", ele sussurrava. E assim meu sonho chegava ao fim.